segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Bela cidade!

            Os candidatos que estão na disputa eleitoral, pelos cargos executivo e legislativo, têm uma dívida com o povo: apresentar um projeto de cidade “bela”.
            As cidades merecem ser tratadas como algo belo. Útil, mas belo. Prático, mas belo. Funcional, mas belo.
            Não, os cidadãos não querem uma cidade bonitinha, ingênua, agradável e fácil. A cidadania merece o belo que é útil, prático e funcional. Aqueles que desejam exercer funções tão importantes devem isto ao povo.
            A beleza é reprimida todas as vezes que viver nas cidades se torna disfuncional, não-prático e sem utilidade. Numa palavra: sofrível.
            A beleza está reprimida em nossas lembranças e sensações com ela própria. É como se a beleza fosse artigo supérfluo e insignificante diante de tantas necessidades. Isto quer dizer que estamos perdendo a sensibilidade que só a beleza oferece.
            Erramos denominando de belo apenas ao visual dos lugares como: canteiros centrais floridos, árvores com refletores de lâmpadas coloridas, semáforos modernos, uma escultura ou monumentos em praças, iluminação especial.
            Entretanto, precisamos considerar a que estilo de vida estes investimentos têm nos levado: poluição sonora e atmosférica; alta concentração de pessoas em espaços apertados; valorização imobiliária que leva ao enriquecimento de poucos e, consequente, empobrecimento da grande maioria por não terem acesso aos mesmos recursos; tráfego pesado e poucas vagas de estacionamento; pouco tempo para se alimentar convenientemente; gastos com combustíveis, porque as moradias estão mais distantes dos locais de trabalho; péssimo serviço de transporte público; etc.
            Tais condições geram: alto índice de absenteísmo, obsessões sexuais, abandono das escolas e baixo índice de aprendizagem, alimentação compulsiva, dependência química, escapismos em forma de viagens turísticas, violência, irritação e raiva, ataques de pânico, ansiedade, distúrbios de caráter, etc.
            Lembremo-nos: Narciso se afogou não por si mesmo, não pelo reflexo na água, mas pelo distúrbio da beleza que o levou à desordem, à feiúra, à morte.
            Não, a beleza não está nos olhos que quem vê. Não, a beleza não é relativa.
            A beleza é o perfume que os deuses nos deixam quando nos visitam. Está no incomum, no maravilhoso, no delicioso, no “do-outro-mundo”. Infelizmente, tendemos a tornar tudo como comum, corriqueiro, normal. E, os políticos nos devem isto: revelar o incomum no comum, executar projetos que nos levem a qualidade de vida, liberdade, aos prazeres dos sentidos e não aos avanços tecnológicos sem alma, a doçura e ternura.
            O melhor que os candidatos podem fazer pelo povo começa com o que podem fazer com eles, se perguntando, por exemplo: por que gosto da minha cidade, por que é gostosa para mim e para minha família, ou por que é gostosa para todos? Esta cidade me inspira a viver como humano, ou como um empresário, comerciante, médico, psicólogo, militar, professor? Que sentido tem as palavras de Rainer M. Rilke para mim: “Abandone a selvageria. Seja terno ao toque. Acaricie a você mesmo, para sentir que você é suave. É o seu próprio centro que você acaricia. Sua reflexão deve ser suave como a luz da manhã. E, desta forma, você nos mostrará como Narciso é redimido!”

(Sílvio Lopes Peres – Psic. Clínico – CRP 06/109971 – Candidato a Analista pela Associação Junguiana do Brasil (AJB/Campinas), filiada à IAAP – International Association for Analytical Psychology (Zurique/Suíça) - Fones: (14) 99805.1090 / (14) 98137.8535)

O ‘ouro’ de Thiago Braz da Silva

            O campeão e recordista olímpico no Salto com Vara, o mariliense Thiago Braz da Silva, medalha de ouro nos Jogos Olímpicos Rio 2016, compartilhou um pouco de sua história de vida e carreira esportiva: abandonado pela mãe e criado pelos avós, por dias esperou, com a mochila nas costas, que a mãe retornasse para buscá-lo, o que nunca aconteceu; conheceu a modalidade através do seu tio Fabiano Braz; e, há dois anos passou a ser treinado pelo técnico ucraniano Vitaly Petrov.
            Sua história de vida revela mais do que um caso de superação: Thiago se aproxima das feridas que a vida lhe infligiu (injusta e erradamente), dos segredos e das confissões de suas orações mais íntimas, da criança e da infância imaginárias, isto é, daquilo que Sigmund Freud e Carl Gustav Jung concordam – a criança e a infância filogenética, além da criança e infância reais, pois é imaginal, arquetípica, não-empírica.
            Neste sentido, Thiago nos oferece uma grande oportunidade para refletirmos quanto a “nossa” criança e infância: tudo aquilo que é simples, ingênuo, rejeitado, pobre, abandonado, comum – o órfão – da sociedade e da psique, mas que nestas condições pode alterar pelo enfrentamento as duras realidades a que estamos sujeitos.
            Não apenas devemos nos sentir responsáveis pela “nossa” criança e infância, social e psiquicamente, mas sentir que somos a própria criança e infância que precisa de atenção, cuidados, amparo, acolhimento se não quisermos vivenciar a imagem da criança morta, da esperança perdida, da falta de criatividade e de sentido.
            “Nós descobrimos a criança abandonada acima de tudo nos sonhos, onde nós próprios, ou uma criança nossa, ou uma desconhecida, é negligenciada, esquecida, chora, está em perigo ou em necessidade. A criança afirma sua presença através dos sonhos; mesmo abandonada podemos ouvi-la, escutar seu chamado”, segundo James Hillman (Estudos de Psicologia Arquetípica. Rio de Janeiro: Achiamé, 1981, p. 26-27).
            Precisamos ir além da culpa que esta situação pode nos trazer, aliás, nos envolver participativamente com toda a história que envolve as condições de abandono e rejeição para que não se repitam, cuidando dos elementos novos e tenros que precisam de ajuda para crescer.
            Tendemos a achar que existe alguma coisa fundamentalmente errada na criança que a faz um ser frágil, carente, perversa (como querem alguns da psicologia) e, por isso mesmo sujeita ao abandono. Empenhamo-nos a tirá-la da condição da infância pela educação, batismo, imunização. Não as aceitamos como são. Assim impedimos a criança de cumprir a sua função, a de alterar a personalidade, fazer a combinação dos elementos conscientes e inconscientes da personalidade.
            Thiago expõe ao mundo que o abandono e perigo sofridos são como condições para o desenvolvimento da capacidade de ser independente; de experimentar-se no processo de maturação dos fatores contrastantes da personalidade, em busca de uma amplitude de consciência; de forças interiores para enfrentar os perigos e as agressões.
            O ‘ouro’ que Thiago pôs em nosso peito é o do “motivo da criança”, como afirma Jung: “A criança é tudo o que é abandonado, exposto e ao mesmo tempo o divinamente poderoso; ela é o início insignificante, duvidoso, e o fim triunfante. A ‘eterna criança’ no homem é uma experiência indescritível; um estado de inadaptação, uma desvantagem e uma prerrogativa divinas; em último lugar, um imponderável que constitui o valor ou desvalor último de uma personalidade” (Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2000, p. 178).

(Sílvio Lopes Peres – Psic. Clínico – CRP 06/109971 – Candidato a Analista pela Associação Junguiana do Brasil (AJB/Campinas), filiada à IAAP – International Association for Analytical Psychology (Zurique/Suíça) - Fones: (14) 99805.1090 / (14) 98137.8535)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Pai e filha

            Em tempos de misoginia – ódio, desprezo e repulsa ao gênero feminino e às características a ele associadas -, violência doméstica e nas ruas, cumprir com as exigências culturais e econômicas como trabalhar fora, educar os filhos, cuidar da casa, atender aos padrões de beleza e da moda, competir no mercado de trabalho, tem se mostrado um grande desafio para a grande maioria das mulheres.
            Neste contexto, o pai desempenha um papel crucial na vida das filhas, independente da faixa etária, se quiser exercer uma paternidade suficientemente boa.
            O pai é a pessoa que pode comunicar à filha, com segurança, que ela pode ser mulher num mundo que exige muito dela, sem que despreze sua feminilidade.
            É ele que favorece a ideia de que ela pode, inclusive, ser mãe, isto é, dá acesso aos vários caminhos que estão disponíveis em nossa cultura, para que ela escolha, decida e continue a ser quem ela é, que desenvolva e explore, como mulher, seu pleno potencial, sua identidade pessoal, sua vocação, seu lado assertivo e agressivo, sua expressão sexual, seu caminho espiritual.
            “O resultado da luta de uma mulher para sentir-se psicológica e socialmente inteira e integrada, e ao mesmo tempo ser psicológica e socialmente diversificada é, em grande medida, moldado pelo relacionamento pai-filha”, afirma o analista junguiano Andrew Samuels, em “A psique política” (Rio de Janeiro: Imago, 1995, p. 179).
            As filhas esperam que seus pais sejam homens não aliados aos padrões restritivos colocados sobre as mulheres, mas sim, alguém para quem existem muitas perspectivas e modos de ser mulher.
            É importante que o relacionamento pai-filha seja travado numa energia psicológica que ela viva coerentemente com seus próprios sentimentos, impulsos, fantasias e instintos, sem a famigerada culpa da “supermulher” e “supermãe” conforme os padrões veiculados pelos meios de comunicação dirigidos ao público feminino.
            O relacionamento pai-filha atua como pano de fundo e pode ser suficiente ou insuficiente, quer dizer, proporcionar satisfação ou insatisfação à vida da mulher.
            Não são poucas as mulheres que tentam manter sua agressão fora de seu casamento e sob controle no trabalho, mas são consumidas pelo medo de que podem explodir num “ataque de nervos”, por que seus pais reprimem, não aprovam, e/ou não sabem lidar com a agressividade delas.
            Sentimentos, impulsos, fantasias e instintos nos caracterizam como seres humanos, e as mulheres têm direito de expressá-los. E, os pais exercem um crucial papel nisso, no sentido de ajudar as filhas a lidarem com isto sem culpa, ao contrário, valorizar-se e integrar os fatores inconscientes ao modo de ser mulher.
            Os efeitos de um pai emocional ou fisicamente ausente/distante podem ser profundos para a filha: sentir-se desvalidada pelos homens, até pelos filhos que venha a ter ou já têm; achar que não possui nenhum poder de sedução e ser deixada pelo/a companheiro/a; ter pouca confiança em si mesma, em suas capacidades de trabalho principalmente se trabalha com homens menos capazes do que ela.
            Reflita sobre isso, se você é pai de uma mulher. Feliz Dia dos Pais!

(Sílvio Lopes Peres – Psic. Clínico – CRP 06/109971 – Candidato a Analista pela Associação Junguiana do Brasil (AJB/Campinas), filiada à IAAP – International Association for Analytical Psychology (Zurique/Suíça) - Fones: (14) 99805.1090 / (14) 98137.8535)

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Conscientização: Fundamento da Democracia

            Nem sempre as imagens comunicam a verdadeira face das pessoas e seus reais objetivos. Muito facilmente nos deixamos envolver por imagens sentimentalmente embelezadas, como se a realidade não tivesse obscuridades.
            Por exemplo: o governo interino do País utiliza a imagem da Bandeira Nacional com o lema “Ordem e Progresso”, como plataforma ideológica de defender decisões liberais, na tentativa de conservar e aperfeiçoar aquilo que existe de bom, a “Ordem”, através da correção e eliminação do que é ruim, para se alcançar o “Progresso”.
            Sim, até governo interino tem ideologia; e, a desse é defender a doutrina religiosa positivista: a busca e a manutenção de condições sociais básicas – “respeito aos seres humanos, salários dignos e o melhoramento material, intelectual e moral” da Nação -, conforme a definição do referido lema no portal Wikipédia, que o próprio governo tem se utilizado e processado alterações na defesa de seus interesses. Entretanto, as suas propostas e decisões têm mostrado a direção contrária a estes conceitos. A hipocrisia, como manifestação da perversão, se desmascara.
            Neste contexto, nossos olhares precisam refletir sobre os acontecimentos históricos, remotos e contemporâneos, que marcam a nossa democracia. A justificativa para esse exercício está além de uma mera oposição ao governo interino e seus planos, mas, trata-se de, séria e verdadeiramente, procurarmos relacionar o desenvolvimento político com o nosso desenvolvimento psicológico pessoal com a democracia.
            Esse desenvolvimento não é alcançado se permanecermos em nossas “zonas de conforto”. É preciso um envolvimento pessoal com os conteúdos do inconsciente cultural brasileiro que tocam às fragilidades do nosso processo democrático.
            Não podemos encobrir com subterfúgios as tragédias político-sociais e econômicas experimentadas pela sociedade brasileira. Antes, temos de exigir de nós mesmos um envolvimento profundo com as condições deste momento, assumindo nossas sombras pessoais e enfrentar os fatores políticos do processo em curso, do contrário, as nossas estruturas psicológicas e sociais sofrerão fortes abalos. A conscientização política e psicológica é o fundamento da vida democrática de um povo.
            Temos de entrar em acordo, depressa, com a nossa memória histórica. Quando o tempo passado se ausenta, o presente é romantizado. O apagamento e desapego da história enganam com uma aparente inofensiva inocência.
            Portanto, o desenvolvimento político passa por um desenvolvimento psicológico quando nos relacionamos com os fatores inconscientes que nos levam a um distanciamento dos processos históricos da nossa democracia. O processo democrático real depende da relação política com as nossas zonas externas e internas, do mundo real e do reino interior, da relação consciência e inconsciente.
            A Bandeira Brasileira tem mais do que “Ordem e Progresso” – empobrecemos o processo político interno e externo se nos identificarmos com isto, apenas. Temos de ir além da beleza sentimental da imagem verde e amarela.
            “Aquilo a que damos o nome de civilização, [...] tem uma outra face, a de uma ave de rapina cruelmente tensa, espreitando a próxima vítima, face digna de uma raça de larápios e de piratas. Todas a águias e outros animais rapaces que ornam nossos escudos heráldicos me parecem os representantes psicológicos apropriados de nossa verdadeira natureza”, afirma C. G. Jung (Memórias, sonhos, reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015, p. 250).

(Sílvio Lopes Peres – Psic. Clínico – CRP 06/109971 – Candidato a Analista pela Associação Junguiana do Brasil (AJB/Campinas), filiada à IAAP – International Association for Analytical Psychology (Zurique/Suíça) - Fones: (14) 99805.1090 / (14) 98137.8535)

domingo, 24 de julho de 2016

Os impactos psicossociais da desigualdade econômica

            A distribuição de renda no Brasil é um dos mais graves problemas sociais e culturais que precisa de uma atenção especial de todos nós. A desigualdade entre os que têm e os que não têm, aumenta cada vez mais. O assunto é muito sério, para deixarmos apenas nas mãos de políticos. Temos de nos envolver pessoalmente nesta matéria.
            A desigualdade entre ricos e pobres é uma questão de saúde psicológica em todos os países do mundo, segundo Richard Wilkinson, professor e pesquisador inglês.
            Para ele, as sociedades com uma distribuição mais equitativa dos rendimentos têm saúde melhor, menos problemas sociais como violência, abuso de drogas, gravidez indesejada entre adolescentes, doença mental, obesidade, e outros.
            Sua pesquisa chega a algumas conclusões: a renda percapita baseada nos PIBs dos países não faz relações com a qualidade de vida e de bem-estar das pessoas, antes, omite que a renda econômica significa alguma coisa muito importante dentro de nossas sociedades; quanto maior a desigualdade entre pobres e ricos menor é o desempenho das crianças em matemática e alfabetização, crescem as taxas de mortalidade infantil, de homicídios, de consumo de álcool e drogas, maior severidade na aplicação das leis, menor capacidade de mobilidade social.
            O gatilho para piorar as condições de saúde mental da população mais pobre está relacionado às diferenças de renda com os mais ricos.
            A prosperidade social e econômica do nosso País, neste sentido, depende da nossa saúde mental e de bem-estar. Em relatório, a Organização Mundial da Saúde afirma: “Existem provas irrefutáveis de que a desigualdade é uma das principais causas de estresse, e, o estresse agrava as condições de lidar com a privação material”.
            Wilkinson aponta para um dado muito importante: “Como alguns países conseguem maior igualdade? A Suécia tem enormes diferenças nos ganhos, mas estreita a lacuna através da alta taxação de impostos, bem-estar geral provido pelo estado, benefícios generosos e assim por diante. Entretanto, o Japão é bem diferente: começa com diferenças muito menores nos ganhos salariais. Tem taxas de imposto menores. Tem provisão estatal menor no bem-estar”. E, conclui: “O bom desempenho na diminuição da desigualdade através da redistribuição, não importa muito como você consegue, desde que você consiga de alguma maneira”.
            O estresse provocado pela desigualdade de renda leva algumas pessoas a se sentirem piores do que outras; deixa a todos mais sensíveis a serem olhados com superioridade; gera desconfiança na avaliação que as pessoas fazem umas das outas; intensifica a competição por status; aumenta o medo dos julgamentos de desempenho social, que por sua vez, suscita o sentimento de ameaça à autoestima.
            “Isto significa que os pobres serão menos capazes de desenvolver uma consciência de atividade, e, portanto, menos eficazes no nível político. Sem esquecer que viver na pobreza é incrivelmente estressante”, afirma Andrew Samuels, psicoterapeuta, professor de psicologia, escritor e ativista político em seu “A psique política” (Rio de Janeiro: 1995, p. 125).
(Sílvio Lopes Peres – Psic. Clínico – CRP 06/109971 – Candidato a Analista pela Associação Junguiana do Brasil (AJB/Campinas), filiada à IAAP – International Association for Analytical Psychology (Zurique/Suíça) - Fones: (14) 99805.1090 / (14) 98137.8535)

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O valor psicológico da hipocrisia

            Em “Perversão: Uma Abordagem Junguiana”, ainda não traduzido para o português, a analista Fiona Ross apresenta a opinião de diversos autores sobre o tema, com destaque para a afirmação de Donald Meltzer: “A essência do impulso perverso é alterar aquilo que é bom em mau, preservando ao mesmo tempo a aparência de bom”.
            A perversão se relaciona, então, diretamente com o caráter da pessoa que se esforça “parecer” possuir um bom caráter, entretanto, seu caráter é falso.
            Estamos no campo da hipocrisia. A hipocrisia é um dos maiores problemas da vida social em todo o mundo. E é no cenário político, nacional e local, que a identificação dos hipócritas tem se tornado uma grande dificuldade.
            No tempo presente, marcado pelos ódios e preconceitos de toda espécie, não é difícil nos identificar com o mal acreditando que estamos nos posicionando ao lado do bem. E isto não só por fazer uma equivocada leitura do espírito de época, mas porque o Ego, como grande fator em nossas escolhas, pode comprometer a integridade do nosso caráter, pervertendo o nosso desenvolvimento psíquico.
            Precisamos admitir que o “lobo” está dentro de nós, que não somos “ovelhas” o tempo todo. Aliás, queremos encontrar alguém que possa ser acusado de ser “o lobo”.
            Se considerarmos a perversão como um fator subjetivo atuante em nossa personalidade, ela pode proporcionar uma energia com efeitos transformadores, trazendo elementos inconscientes para a consciência e, assim, transcender o problema da hipocrisia. Ao invés de sermos possuídos pelo “lobo”, nós podemos dominá-lo. O problema pode ainda existir, mas, se ele for compreendido de outra forma, pode fazer uma enorme diferença.
            Precisamos ser capazes de objetivar o “lobo” relacionando-se com ele, para só assim experimentar o que é ser “ovelha”, que tantas vezes é dilacerada. É possível interferir que o “lobo” tenha vida própria, fique isolado.
            Lobos e ovelhas são diferentes: o lobo tem pelos curtos e ásperos, dentes afiados, garras pontiagudas, orelhas atentas, bocarra insaciável por sangue e carne crua, uiva em noites escuras, perseguidor veloz, dissimulado, traidor, diabólico; a ovelha tem a maciez da lã, estrutura frágil, cheira à mato, se alimenta nos campos baixos e verdejantes, seu balido é lamentoso.
            A consciência se amplia à medida que percebemos que o “rebanho” está cercado pela “matilha”, que o “redil” corre o risco de se transformar em “covil”, que “uivar” baixinho é muito diferente de “balir”.
            É possível acompanhar de perto nossos próprios “lobos”. Bem sabemos quando “uivamos”. O “uivo” é inconfundível. Aos nossos ouvidos sentimos quando “uivamos” e disfarçamos que estamos “balindo”. Porém, não dá para disfarçar o tempo todo.
            Como identificar o valor psicológico da hipocrisia?
            Quando substituímos as medidas extremadas, porque no fundo temos dúvida de nossas próprias opiniões, e buscamos a atender a necessidade por argumentos mais consistentes, ainda que mais complexos; quando sentimos que não é possível continuar a dissimular nossas vulnerabilidades com mentiras, violência e força; quando passamos a dialogar e respeitar, sem preconceitos, a todos, e não mais aos que compartilham das mesmas ideias, sentimentos, crenças.

(Sílvio Lopes Peres – Psic. Clínico – CRP 06/109971 – Candidato a Analista pela Associação Junguiana do Brasil (AJB/Campinas), filiada à IAAP – International Association for Analytical Psychology (Zurique/Suíça) - Fones: (14) 99805.1090 / (14) 98137.8535)

domingo, 26 de junho de 2016

Martin Luther King Jr., para hoje

            “Eu tenho um sonho” – famosa frase do discurso de Martin Luther King Jr. (1929-1968), proferido no “Lincoln Memorial”, durante a “Marcha de Washington por Empregos e Liberdade”, pode ser o fio condutor de nossas práticas como indivíduos e como sociedade.
            Enquanto membro de um dos movimentos sociais mais atuantes na cena político-sócio-cultural estadunidense, o Movimento Americano pelos Direitos Civis, o Prêmio Nobel da Paz (1964), diante de mais de 200 mil pessoas, expressou o seu desejo: que as crianças não fossem julgadas pela cor de suas peles, mas pelo caráter delas.
            Quando vários setores da sociedade brasileira encontram em líderes políticos como Jair Bolsonaro e Marco Feliciano na defesa de seus “princípios ideológicos” num discurso misógino, xenofóbico e discriminatório contra os direitos de minorias, por acreditarem que o mundo permanece como era há algum tempo atrás e desejam restaurá-lo à força de seus dogmas religiosos, indica a atualidade da reflexão do pastor batista.
            Luther King referiu-se ao que somos por dentro e como reagimos aos fatores subjetivos que nos possuem. Neste sentido: “Pessoas como Martin Luther King Jr. podem servir como terapeutas para a cultura, o País ou o mundo em geral”, conforme Jennifer Selig, professora fundadora da Pacifica Graduate Institute.
            Mas, onde estão as pessoas que respiram os ventos da liberdade, da paz, da vida como ela é; que choram com os que choram; que olham do cume das montanhas e sentem que não podem parar de ir para frente, mesmo diante das ameaças de morte que todas as tradições representam?
            Onde estão aqueles que, como Martin Luther King Jr., querem que todos os brasileiros tomem posse da herança de direitos que a nossa “Constituição Cidadã” nos garante e rasguem o “cheque sem fundo” que aqueles que assumiram interinamente o poder querem nos passar?
            Onde estão aqueles que, como o Defensor da Igualdade dos Direitos Civis, “se recusam a acreditar que o banco da justiça é falível, que há capitais insuficientes de oportunidade nesta nação”?
            Onde estão aqueles que, como o Homem do Ano pela Revista Time, acreditam que “agora é o tempo para transformar em realidade as promessas da democracia, de erguer a nossa nação das areias movediças da injustiça (corrupção) para a pedra sólida da fraternidade e não satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio, mas de se conduzir num alto nível de dignidade e disciplina”?
            Onde estão aqueles que lutam para que as pessoas injustas e opressoras possam conhecer o coração que aspira a liberdade e a justiça; que somos muito mais do que parecemos daquilo que nos diferencia racial, sexual, cultural, religiosa, econômica e politicamente; que aqueles que vociferam que é preciso obedecer às condições que nos impõem limites e amarram os sentimentos, podem unir as mãos com aqueles que pretendem interditar e viverem como irmãos na construção de um País melhor; que é possível àqueles que plantam discórdia semearem fraternidade; que aqueles que firmam o desespero como montanha podem arrancar as ferramentas da esperança; que todos somos capazes de trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, até sermos presos se preciso for, mas, até cantarmos à uma só voz: “Meu País é seu”?
(Sílvio Lopes Peres – Psic. Clínico – CRP 06/109971 – Candidato a Analista pela Associação Junguiana do Brasil (AJB/Campinas), filiada à IAAP – International Association for Analytical Psychology (Zurique/Suíça) - Fones: (14) 99805.1090 / (14) 98137.8535)