domingo, 13 de novembro de 2016

Detestável Mundo Novo

por Silvia Graubart

Por acaso você já leu a trilogia da ficção científica que marcou época no século XX? Do Admirável Mundo Novoescrito por Aldous Huxley, ao 1984de George Orwell e Laranja Mecânicafruto da imaginação de Anthony BurgessSe não leu, com certeza ao menos ouviu falar

Seriam essas obras uma antecipação do que vivemos hoje? E, ao contrário do que poderíamos pensar, não se tornaramficções obsoletas, e sim retratos de um presente capturado no passado. Elas mostram que nada é mais verdadeiro do que os potenciais efeitos destrutivos do progresso científico irrefreado, que põe em perigo tanto o futuro doplaneta quanto o futuro dos nossos jovens.

Huxley escreveu sobre uma sociedade organizada segundo princípios científicos, onde o controle social não dá espaço ao acaso1984 apresentou uma visão apocalíptica defuturo, onde todos são vigiados e controlados pelo Grande Irmão – o Big Brother da telinha. E Laranja Mecânicaretratou a violência que toma conta dos jovens, que roubam, espancam, estupram e matam qualquer pessoa, numa sociedade fora de controle.

Misto de histeria e hiperaceleração, estsituação começou lá atrás, provavelmente com a revolução industrial, e chegou aos dias de hoje transfigurando a capacidade de nos comunicarmos a partir da tecnologia. Ah... Atecnologia da internet! Como precisamos repensar a maneira de usá-la.

Estamos, o tempo todo, conectados a smartphones ou tabletsAproveite o seu e veja agora, no Youtube, aanimação crítica feita pelo ilustrador Steve Cutts e o compositor de música eletrônica Moby para a canção Are you lost in the world like me? (Você está perdido no mundo como eu?). Acompanhe o menino solitário navegando por um mundo consumido pela tecnologia, onde não existe interação entre as pessoas; surpreenda-se com a moça triste, que sorri apenas ao se enquadrar para uma selfie; com os dois homens que não param de digitar a palavra ‘LOL’ (que significa riso) ao seguiremoticons sorridentes, mesmo que mostrem fisionomiascarregadas e a alegria esteja a incontáveis bits de distância.

A questão se complica ainda mais com os jogos online: The Chocking Game, por exemplo, foi responsável pela morte de um garoto de 13 anos, encontrado dentro do quarto do pai com uma corda enrolada no pescoço. Não, esta não é uma história de ficção: o garoto brincava este jogo de estrangulamento com três amigos, que teriam acompanhado seu enforcamento em tempo real, através da transmissão ao vivo por uma webcam.
Triste consequência do uso equivocado da tecnologia, que não invalida muito menos impede a intromissão do acaso. Melancólico resultado do nosso incorrigível fascínio por imagens literaisDetestável mundo novo, no qual a força, o descontrole e a violência incitam a uma irrefreável necessidade de ganhar.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Que bicho você tem? Que bicho deu em você? Que bicho te mordeu?

Nossa identificação com os animais é mais próxima do que pensamos. Isto pode ser observado, por exemplo, ao empregarmos algumas expressões: “filho de peixe, peixinho é”, “este tem sangue de barata”, “lágrimas de crocodilo”, etc. Não é difícil imaginar-nos como animais. É como se tivéssemos os mesmos instintos.
Os animais fornecem a base dos nossos traços comportamentais: a agressividade de um cão; a feminilidade de uma gata; o ludibrio do macaco; a moleza da preguiça; a camuflagem do camaleão; a força do touro; a astúcia da raposa; a rapinagem do gavião; o veneno e/ou o curativo da cobra; o arroubo dos pássaros; a ligeireza do jumento - imortalizada na “Apologia do jumento”, de Luiz Gonzaga; etc.
As Sagradas Escrituras nos lembram: “Eu estou enviando vocês como ovelhas entre lobos. Sejam cautelosos como as serpentes e inofensivos como as pombas. Mas, cuidado!” (Evangelho de Mateus 10:16). Que bicho você tem? Somos todos!
Imaginamos e nos comportamos como ovelhas, lobos, serpentes, pombas. O mais significativo é que olhemos para nós e percebamos as nossas afinidades com os animais, isto é, se quisermos preservar-nos da extinção.
Combinar a prudência com a simplicidade pode significar a diferença entre a derrota e a vitória, a morte e a sobrevivência. Ser, ao mesmo tempo, astuto, cauteloso e sagaz, inofensivo, singelo e cândido é um dos pares de opostos que mais nos desafiam.
“Os animais poderiam fazer-nos conscientes de nós mesmos”, afirma James Hillman (Animais de sonho). Do cume da cadeia psicológica e moral, os animais nos alimentam com os ensinamentos de como podemos ser humanos.
Para ficarmos apenas com o “bestiário” evangélico: ovelha é seguidora, diz respeito ao nosso instinto de rebanho; aponta para uma fantasia paradisíaca “as ovelhas morarão junto dos lobos” (Isaías 11.6). Seria isto que explica a nossa pacata resignação em aceitar a decretação do fim de nossos direitos e seguirmos, calados, ao matadouro da liberdade e da cidadania?
O lobo é dono de uma determinação fria e inflexível, graças à sua raiva oculta; trapaceador - no conto “Chapeuzinho Vermelho”, foi capaz de se camuflar na vovó, sendo assim, o feminino devorador e obscuro; vorazmente faminto, sua inteligência pode levá-lo à morte; ressentido por não possuir tudo que quer, ataca a todos que cruza os seus caminhos, mesmo sabendo que pode perder até aquilo que tem, por julgar-se esperto e malandro. Do lobo, se formos determinados como ele, podemos fazer valer a inteligência estratégica e prevalecer os valores corretos sobre o mal de outros lobos.
A pomba vagueia por todo e qualquer lugar, bastando ter alimento disponível; sua natureza-pássaro a caracteriza pela volatilidade do voo; símbolo do espírito do bem, da gentileza e do Espírito Santo. Assim, a pomba revela instabilidade, ainda que identificada como “do bem”; é bom lembrar que logo após “descer” sobre Jesus, em seu batismo, o conduziu ao “deserto para ser tentado” (Mateus 3:16-4:1). Deixar-se levar pelo “bem”, pode significar inconstância e desprezo pelo que já foi conquistado.
A serpente possui vastas referências a sabedoria, porém, muito dissimulada; dona de uma pele elástica e que escama, revela a capacidade de renovar-se; é portadora do elixir da cura de sua picada mortal; ela exige atenção redobrada, para não deixar-se ser apanhado em um momento de distração. Nos conflitos humanos precisamos ser como a cobra: avançar, criteriosamente, sobre as dificuldades, sem cansar de ser forte.

(Sílvio Lopes Peres – Psic. Clínico – CRP 06/109971 – Candidato a Analista pelo Instituto de Psicologia Analítica de Campinas (IPAC), membro da Associação Junguiana do Brasil (AJB), ambos filiados à IAAP – International Association for Analytical Psychology (Zurique/Suíça) - Fones: (14) 99805.1090 / (14) 98137.8535).

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Tweet de Roque Tadeu Gui no Twitter

Roque Tadeu Gui (@roquetadeu)
Ar frio. A chuva escorre como areia sobre um delicado papel de arroz. O corpo se recolhe debaixo das cobertas acolchoadas da cama solitária.

Tweet de Roque Tadeu Gui no Twitter

Roque Tadeu Gui (@roquetadeu)
Ar frio. A chuva escorre como areia sobre um delicado papel de arroz. O corpo se recolhe debaixo das cobertas acolchoadas da cama solitária.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Um lapso desculpável

por Roque Tadeu Gui

Desculpe! Erramos!

Acontece. Às vezes, no afã de escrever o texto, a gente tropeça. Foi o que ocorreu em minha crônica “Ingrid”.

Lá pelas tantas, faço uma referência à atriz Alicia Vikander, que emprestou voz à Ingrid para a narrativa de sua história. Associei Alicia ao filme Her (2013), quando, na verdade, pretendia me referir a Ex Machina (2015). Lambança geral na citação! Resta colocar ordem na bagunça.

A confusão se explica. Ambos os filmes são excelentes filmes de ficção. A atriz, em Her, é  Scarlett Johansson, no qual participa in off apenas com sua voz sedutora. Em Ex Machina, este sim, com Alicia Vikander, a atriz representa uma mulher criada em laboratório e portadora de sofisticada inteligência artificial. Gostei muito de ambos os filmes e em virtude de associações afetivas misturei tudo.

Aliás, Alicia Vikander está também em “A garota dinamarquesa” (The Danish Girl, 2015) e aparece cotada para o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Na crista da onda, a conterrânea de Ingrid!

O lapso inocente cometido pelo cronista talvez possa trazer alguma luz para a reflexão cinéfila. Ao assistir a um filme, nunca vemos apenas o filme. Mercê do fluxo imaginativo, estimulado pela película, cruzamos referências, fundimos imagens, conectamos emoções, transitamos de um filme para outro, sem a completa participação de nossa consciência. Diante de uma obra de arte, o impulso criativo de nossa mente não resiste a criar seu próprio enredo, suas histórias e seus personagens. A imaginação, qual diretor de nossa intimidade, altera roteiros, veste personagens, escala alguns, confere nuances afetivas.

É assim que, da voz de Scarlett se faz a voz de Alicia e desta a de Ingrid. Tudo envolto pelo fascínio do mundo feminino exposto em Her, Ex Machina e Jag är Ingrid. Sim, este último é o título, em sueco, do Eu sou Ingrid Bergman.

Ingrid

por Roque Tadeu Gui

Talvez uma vida somente possa ser compreendida quando vista do futuro para o passado.

Embora a ideia não seja original, ganhou evidência para mim ao assistir “Eu sou Ingrid Bergman”, filme realizado em homenagem aos 100 anos do nascimento da atriz sueca em 1915, dirigido por Stig Björkman, seu conterrâneo.

Uma cinebiografia narrada em primeira pessoa na voz de Alicia Vikander (Her, 2014), atriz contemporânea muito prestigiada na Suécia, alterego de Ingrid, baseada em diários, entrevistas e filmes amadores feitos pela própria Ingrid, enriquecida por comentários dos quatro filhos da atriz, mas nada de pieguice do tipo “mamãe era demais”!

Fica claro que Ingrid nasceu para atuar e, circunstancialmente, ser mãe. Mais amiga do que mãe, segundo ela mesma, e os filhos.

Ingrid foi uma quarta filha, única que vingou. Perdeu a mãe aos três anos e ficou aos cuidados do pai até os quinze, perdendo-o também.

Com o pai aprendeu a amar os filmes e, segundo a psicanalista que me acompanhou no programa de cinéfilo, aprendeu a gostar de ser vista por um homem por detrás de uma câmera. Daí seu desejo de reiterar a experiência ao longo da vida…

Com um corpo belo e forte, loira, verdadeira descendente viking, uma valquíria, encantou o cinema americano, italiano e francês. A começar por diretores como Hitchcock, George Cukor, Roberto Rosselini, Jean Renoir, Vincente Minelli e Ingmar Bergman.

Em nome da arte, os filhos sofrerão certo abandono, o mesmo vivido pela criança Ingrid, lançada ao mundo sem a companhia de irmãos, abandonada pela mãe morta e privada do olhar cinetoscópico do pai, segundo a opinião confiável de minha acompanhante psi.

Amará vários homens, encantar-se-á com diretores, substitutos do pai no ato confirmatório de ser admirada através das lentes. Percebo o olhar arguto e afirmativo de minha amiga…

Uma mulher que nasceu para atuar. Olhando a partir de hoje, um século passado, podemos compreender o que se passou.

Seria necessária a experiência, ainda que inominada à época, de sobreviver a três irmãos que não "estrearam" no mundo, se não houvesse algo a ser realizado? Uhm, posso sentir a desconfiança da psicanalista em relação a meu argumento: "isto está me parecendo teleologia, pré-determinação, destino, para dizer pouco!"

Mas, admitamos por um momento que o gênio performático encarnado por Ingrid precisava de circunstâncias especiais para vir ao mundo, sofrendo perdas que mobilizassem a energia necessária para realizar sua obra.

Se assim for, Ingrid perderá o olhar cinematográfico do pai para buscar ansiosamente o olhar do outro atrás da câmera. A perda da mãe, abandono simbólico (posso ver minha companheira sorrindo) lhe dará forças para deixar os filhos e realizar seu trabalho no mundo.

Minha amiga dirá que se tratava de narcisismo compensatório! Sei não… Talvez o gênio precisasse disso, se olharmos da frente para trás…

Dois pensamentos que talvez se encontrem em algum ponto.

Num, a pequena Ingrid, vítima de circunstâncias biográficas, repete o script traumático vida afora. Afortunadamente, converte seu sofrimento em trabalho de encantamento artístico. Minha amiga tem um nome bonito para isso: “sublimação”.

Noutro, a menina Ingrid é portadora de um gênio que utiliza as circunstâncias da vida para adquirir o estofo necessário para criar a obra de arte.

Em ambas as perspectivas, a personagem Ingrid não possui completa autoridade sobre si, mas cumpre um “a priori”, um desígnio, uma missão. Uma vida que não podia ser vivida de outra forma.

Volto-me para minha cúmplice cinematográfica. Percebo um discreto olhar de benevolente tolerância.

A Babel das Fotos

por Roque Tadeu Gui

Estou no alto do Hotel Las Américas, Cartagena das Índias, Colômbia. Comigo, esposa e casal amigo. Estamos no Pacífico, margeando o Caribe; a imensidão do mar, que vai de ponta a ponta do horizonte, cobre os 180 graus de visão. A vista é imponente. Abaixo, moradias que, vistas de cima, parecem casinhas de brinquedo, contrastando com a paisagem larga da natureza.

O impulso a fotografar as imagens estonteantes é quase que natural em tais ocasiões e concorre com o desejo de usufruir das sensações visuais e epidérmicas: aqui o vento forte sopra um calor escaldante que faz Natal e Fortaleza parecerem um paraíso morno.

Munidos de nossos celulares, clicamos ininterruptamente. Clique daqui, clique dali, e dou-me conta de que todos do meu pequeno grupo estão fotografando os mesmos objetos: o mar ali à frente, o horizonte aberto de ambos os lados, as residências, a vegetação, a cidade de Cartagena mais adiante.

Penso que mais tarde compartilharemos as mesmas imagens e teremos réplicas de tudo que foi fotografado. Em um mesmo rolo de câmera digital as fotos se misturarão e quase não saberemos o que foi eu que fotografei, o que foi minha mulher ou nossos amigos. O rápido compartilhamento por whatsapp cuidará de fazer a mescla final. Coisas da simultaneidade digital!

No jantar talvez tenhamos alguma discussão sobre quem foi o autor de alguma foto particularmente bem enquadrada. Mas, o sentimento geral será o de que não importa muito. Com tranquilidade, poderei assumir minha culpa por usurpar a autoria desta ou daquela foto.

Ao dar-me conta desses pensamentos, surpreendo-me com a ideia de terceirizar o clique fotográfico! Minha mulher já bateu, ou baterá, aquela foto, meu amigo também já clicou. Posso deixar de fazê-lo; de qualquer modo, ao final, as imagens repousarão em meu acervo pessoal. Guardarei algumas, descartarei outras, ao meu bel-prazer. Meu devaneio talvez anuncie a morte do fotógrafo, uma paráfrase da morte do autor.

Guardo meu celular e passo a observar os detalhes da paisagem. A observação pausada, despreocupada e fina, não facilmente compartilhada, talvez escape à Babel das Fotos.